

Tropa de Elite. José Padilha, 2007
Poucos filmes brasileiros causaram um impacto popular tão grande quanto Tropa de Elite. Antes mesmo de chegar oficialmente aos cinemas, o longa já circulava em cópias piratas e transformava o Capitão Nascimento em fenômeno nacional.
Mas talvez a parte mais inquietante do filme esteja justamente na maneira como foi recebido. Nascimento é um homem brutal, autoritário e capaz de torturar e matar em nome de uma guerra que parece não ter fim. Deveria ser visto como um anti-herói: alguém consumido pela violência de uma instituição que também ajuda a reproduzir. No entanto, sua presença dominante, a atuação eletrizante de Wagner Moura, a narração em primeira pessoa, a trilha sonora e o ritmo das operações fizeram com que grande parte do público o enxergasse como herói. Seus gritos viraram bordões. Sua truculência foi confundida com coragem. A violência policial, em vez de provocar apenas desconforto, também despertou admiração. É aí que Tropa de Elite permanece atual e perturbador. O filme denuncia a corrupção da polícia, a hipocrisia das classes médias consumidoras de drogas e a lógica de uma guerra que transforma favelas em territórios inimigos. Ao mesmo tempo, sua força cinematográfica torna sedutor justamente o personagem que encarna essa violência. Vale rever o primeiro Tropa de Elite não para celebrar o Capitão Nascimento, mas para perguntar: por que uma sociedade tão acostumada à violência desejou transformá-lo em herói?
Bernardo Parreiras
Enviado por Bernardo Parreiras em 25/08/2026
Alterado em 25/08/2026 Comentários
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