

Quem come primeiro? Quem decide quem merece viver?
Antes de virar um filme dirigido por Bong Joon-ho e, depois, uma série de TV, Expresso do Amanhã nasceu como uma HQ francesa de Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette.
A premissa continua poderosa: um trem que nunca para, carregando os últimos sobreviventes da humanidade. Mas o verdadeiro motor da história não é a locomotiva. É a desigualdade. Na cauda, miséria e violência. Na frente, luxo, abundância e privilégios. A ordem social é mantida pela força e pela ideia de que cada um deve "aceitar o seu lugar". É impossível não lembrar de O Poço. Em vez de vagões, andares. Em vez de um trem, uma prisão vertical. Em ambos, a escassez não é natural: ela é organizada. Há comida suficiente, mas ela é distribuída para manter a hierarquia. As duas obras fazem uma pergunta desconfortável: o problema é a falta de recursos ou um sistema construído para que alguns tenham muito enquanto outros disputam migalhas? Tanto a HQ quanto o filme mostram que, quando uma sociedade transforma privilégios em algo "natural", a violência deixa de ser exceção e passa a ser método de organização. Mais do que ficção científica, Expresso do Amanhã e O Poço são alegorias sobre capitalismo, desigualdade e a dificuldade de romper estruturas que parecem eternas. No fim, talvez a pergunta não seja quem está na frente ou atrás do trem. A pergunta é: quem escolheu o trajeto?
Bernardo Parreiras
Enviado por Bernardo Parreiras em 14/07/2026
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