

A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe
Em A Máquina de Fazer Espanhóis, acompanhamos a trajetória de António Silva, um homem idoso que, após uma grande perda, é lançado numa espécie de “exílio em vida”: um lar de idosos onde o tempo parece desacelerar e a existência ganha outra densidade.
O livro mergulha fundo na melancolia da velhice, mas não de forma gratuita ou desesperançosa. Há uma beleza crua na forma como o texto trata o envelhecer, a memória, a solidão e a tentativa de ainda encontrar dignidade quando o mundo já parece ter esquecido esses corpos e histórias. É uma narrativa que incomoda justamente por tornar visível aquilo que a sociedade costuma esconder: a vida depois da “utilidade”. A escrita de Valter Hugo Mãe é poética, intensa e sensível, com frases que parecem esculpidas mais do que escritas. Ele constrói um universo onde a dor convive com pequenos lampejos de humanidade e afeto. Mais do que esse romance, o autor se destaca por uma obra consistente e poderosa, como em O Filho de Mil Homens, entre outros livros que exploram com profundidade temas como identidade, solidão e amor em suas formas mais complexas. Indicação direta: não é uma leitura leve, mas é uma leitura necessária. Um livro que permanece depois da última página — especialmente pela forma como nos obriga a olhar para o envelhecimento sem filtros.
Bernardo Parreiras
Enviado por Bernardo Parreiras em 04/06/2026
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