

DOM CASMURRO: A ARTE DA DÚVIDA EM MACHADO DE ASSIS
Publicado em 1899, Dom Casmurro é uma das obras mais importantes da literatura brasileira. O romance acompanha Bentinho e sua obsessão pela suposta traição de Capitu, mas sua verdadeira força está em outro lugar: na forma como Machado de Assis transforma a dúvida em matéria-prima da narrativa.
Bentinho tenta convencer o leitor de sua versão dos fatos, mas cada página levanta uma nova pergunta: podemos confiar em sua memória? A genialidade de Machado está em construir uma história em que as evidências nunca são definitivas e a verdade permanece inacessível. A ironia machadiana atravessa todo o romance. Por trás do drama amoroso, há uma crítica à sociedade brasileira do século XIX, ao patriarcado, às aparências e às relações de poder. Machado desmonta certezas e mostra como a realidade pode ser moldada por quem conta a história. Embora Dom Casmurro seja frequentemente apontado como sua obra-prima romanesca, muitos leitores e críticos consideram que o ápice da criação machadiana está nos contos. Em textos como O Alienista, Missa do Galo, A Cartomante e Pai contra Mãe, o autor alcança uma síntese impressionante de ironia, crítica social e complexidade psicológica, condensando em poucas páginas a mesma profundidade que desenvolve em seus grandes romances. Por que ler? Porque Machado de Assis continua atual em um mundo marcado por versões conflitantes dos fatos, manipulação de narrativas e disputas sobre o que é verdade. Talvez a pergunta mais importante não seja se Capitu traiu Bentinho, mas se Bentinho traiu o leitor.
Bernardo Parreiras
Enviado por Bernardo Parreiras em 04/06/2026
Comentários
|