Bernardo Parreiras (ecos prosaicos)

Quem é a prosa para falar da poesia?

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Coringa (2019): risadas em busca de um corpo

 
O filme “Coringa” (Todd Phillips, 2019) começa mostrando Arthur Fleck, que sofre com gargalhadas, dissonantes dos seus sentimentos, e sobre as quais não tem controle. Explicadas como consequência de uma condição médica num cartão que Arthur entrega a seus interlocutores, suas risadas são incômodas principalmente para si mesmo, que passa por dificuldades em relação ao emprego e ao serviço público e gratuito onde recebe tratamento.

Lembrando “Alice no País das Maravilhas” (Lewis Carrol), o riso, no filme, é deslocado, como o do Gato de Cheshire que, antes de virar um sorriso sem corpo, explica à Alice que são “todos loucos. Eu sou louco. Você é louca.” Na minha leitura do longa, as risadas - que se precipitam fora do lugar e anacrônicas para Arthur - desaguarão no Coringa, cuja loucura lhes dá espaço e algum sentido, ainda que subversivo e violento.

Como palhaço ou comediante, os risos de Arthur soam anacrônicos e tristes, sem ecoar naqueles que o cercam. Todavia são os risos que acabam criando um corpo (persona) para os encarnar e gozar. O que Fleck não conseguiu nas profissões, o Coringa encontra na subversão, já sem se preocupar com o riso dos outros.

Se Arthur era uma vítima (paciente) sem razões para sorrir, o Coringa torna-se agente do caos, e solta gargalhadas, sem se constranger, expressando seu sentimento de alegria ao agir (reagir) com violência. Em vez de implodir, ele explode; sem medo ou vergonha, ele dança e se diverte no caos; seu riso agora vem de dentro e ecoa, violento e destrutivo, entre os marginalizados.

Arthur é ridicularizado ao se tornar uma piada. Já o Coringa conta suas próprias “piadas”, agressivas e fatais. No início, opostas aos sentimentos do “paciente” sob controle, suas risadas acabam se transformando em manifestações coerentes com o interior da personagem descontrolada. As gargalhadas perturbadoras persistem, porém o incômodo se desloca do protagonista para seus interlocutores. O algoz fantasiado confessa seus crimes e ri, loucamente. A plateia se divide, uns com medo, outros com raiva. Agora é a sua vez de rir, e ele gargalha.
Bernardo Parreiras
Enviado por Bernardo Parreiras em 27/12/2019
Alterado em 28/12/2019


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